Estou nos EUA - grande Boston - por duas semanas. Vim cantar e pregar em uma conferência de louvor numa igreja presbiteriana. Eu e meus amigos, Guilherme Kerr e Ronaldo Bezerra. Nada demais até aqui, exceto pelo fato da frase quase poética: é primavera, mas ainda está frio.
Já vejo flores por todo canto. Os sparrows e mockinbirds estão por todos os lados e as cores das flores iluminam o dia. É primavera, mas ainda está frio. Desses oito dias, só em dois eu vi o sol, provei de seu calor, bebi de sua luz, da vida, do fogo do sol. As pessoas já se animam a caminhar, praticar esportes, pôr bermudas e calçar chinelos. O aquecedor já pode ser desligado um cadinho. Janelas e portas podem ser abertas. Mas a frase, meu mote, se repete: é primavera, mas ainda está frio.
Num só dia, muitos sinais da primavera me acenderam a luz da alegria no coração de brasileiro e de pastor: li num jornal local que Rosa Passos recebera em Berklee, aqui ao lado, no sábado passado, o título de Doutor Honoris Causa por sua contribuição como cantora de MPB. À noite, num bar-restaurante onde fui jantar com meu amigo Igor, um americano simpático puxa conversa e, do nada, conta que morou em São Paulo, gosta muito do Brasil e é cristão. Gosta muito de música, checa meu website no seu iPhone, quer meu CD, quer manter contato. Depois do lanche, como era um dia de folga ministerial, vamos ao cinema. Downtown. Escolhemos um filme pela conveniência do horário. A surpresa agora fica por conta dos atores: Alice Braga e Rodrigo Santoro. Trilha sonora? MPB, da boa. O filme é fraquinho (sobre Jiu-Jitsu falado em inglês, dirigido por americanos), mas a alegria é grande. O Brasil "evangelizando" culturalmente a América? Delírio meu?
Exagero? Afinal, desde a crítica que Carmem Miranda recebeu (e respondeu cantando "Disseram que voltei americanizada ...") e que Tom Jobim desdenhou - com a autoridade de quem é o compositor mais executado nos EUA depois de Lennon & McCartney ("Fazer sucesso no Brasil faz mal"). Temos exportado muito mais do que faxineiros, lavadores de prato em pizzaria, jardineiros, pintores de paredes, trabalhadores braçais. Temos exportado nossa alegria de "viver e não ter a vergonha de ser feliz".
É primavera, mas ainda está frio.
Sempre que venho aqui ou na Flórida, sempre que visito igrejas e imigrantes, ouço histórias tristes de gente que deixou tudo e todos no Brasil e veio em busca de um pouco mais de dignidade, isto é dinheiro - para educar os filhos, comprar uma casinha, abrir um negócio.
E ouço outras histórias lindas, como a de uma capixaba que virou dentista no exército americano (me doou um broche), tem medo de ir para o Iraque e sonha em ser mãe. Converteu-se aqui. Ou a história de um mineiro (oito ou nove em cada dez dos brasileiros que imigram pra cá) que ficou quase cinco anos longe da esposa e do filho, ilegalmente, correndo risco, abrindo o caminho para a família - e que, alguns dias antes da chegada da esposa, me disse que "não tinha para onde levá-los". Ou como a de uma prima de uma grande e famosa jornalista da Globo, que vive sozinha com a filha adolescente (grávida).
Euclides da Cunha dizia que "o sertanejo é, sobretudo, um forte". Eu diria O BRASILEIRO é sobretudo teimoso. Teima pela vida, pela vida que seja digna, boa, gostosa de viver - ainda que para conquistá-la, o preço seja algo assim, como descrevi.
É primavera, mas ainda está frio.
O pastor que me hospeda e acolhe nesses dias, Manoel Oliveira Jr, um jovem goiano talentoso, inteligentíssimo, tem mestrado e doutorado em Teologia pelo prestigiado Gordon-Cornwell Theological Seminary, depois de ralar para pagar seus estudos com diversos tipos de empregos simples e comuns. Hoje, PHD, já presidiu o presbitério da Igreja Presbiteriana da América na região de Boston e é muito respeitado como pastor e teólogo. Eu insisto: estamos exportando mais do que Etanol e carros bi-combustíveis, bossa nova, MPB e cultura. Exportamos vida, talento, vigor e paixão pelo Senhor e seu Reino.
É primavera, mas ainda está frio.
Meu amigo Igor, brasileiro naturalizado americano, empresário, acabou de me dizer que essas pessoas que literalmente floresceram, ainda são muito pouco ou quase nada comparada com o que o frio, o gelo e a neve remanescente do longo inverno ainda cobrem. Mas ele também me lembra que algumas flores aparentemente morrem por fora e por cima, mas como sua raiz está viva e conservada, nos primeiros sinais da primavera começam a recuperar suas cores, sua vida.
Essa minha crônica já está ficando meio longa. Vou encerrá-la com um texto de Cantares (2.12,13), profecia de vida, que me veio à mente enquanto escrevo:
Eis que já passou o inverno, a chuva cessou, e se foi; aparecem as flores na terra, já chegou o tempo de cantarem as aves, e a voz da rola ouve-se em nossa terra. A figueira começa a dar os seus primeiros figos; as vides estão em flor e exalam o seu aroma".