Demorou um bom tempo até que eu me acostumasse com o nome da profissão... "designer", uma palavra em inglês sem tradução direta. Tal qual a maioria das pessoas, eu associava imediatamente o significado da palavra design com desenho, mas esta associação era insatisfatória. Eu não era um desenhista e a maioria das minhas criações já estavam virtualmente prontas antes mesmo de existirem fisicamente; na verdade, muito antes de serem sequer desenhadas. Para mim, o design é muito mais do que o desenho. É uma expressão concreta, meu desígnio.
Foi por causa dessa brincadeira etimológica que a palestra sobre "design inteligente", de Adauto Lourenço - mestre em física pela Clemson University, Carolina do Sul - promovida pela Igreja Presbiteriana de Alphaville no final do ano passado, chamou tanto a minha atenção. A maioria dos artistas vive em crise com o método cientifico, afinal, o mundo dos homens é pragmático demais. Imaginar que toda essa beleza e complexidade tenha sido criada com um design intencional é no mínimo um alivio.
Imagine que você está andando pela praia bem cedo, depois de uma noite de mar agitado, o sol ainda está se erguendo e os primeiros raios de luz iluminam timidamente a areia da praia que está deserta, repleta de gravetos e folhas que estão espalhados pelo chão, provavelmente trazidos pelas ondas. De repente você olha adiante e vê os gravetos alinhados de forma complexa. Você presta mais atenção e, à medida que você se aproxima, percebe que é um texto:
"Mundo, mundo, vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo,
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo, mundo, vasto mundo,
mais vasto é meu coração." (Carlos Drummond de Andrade)
Seria possível que os gravetos formassem esse texto ao repousarem aleatoriamente na areia, trazidos até ali pelas ondas e pelo vento? É estatisticamente possível que, em alguns bilhões de anos, os gravetos se dispusessem numa configuração que lembrasse as letras do alfabeto, mas o conceito de um mundo vasto e de um coração mais vasto ainda exige uma alma, um sentimento e uma vida inteligente por trás dessa produção.
A palestra me fez meditar no ofício do designer e no suposto designer do mundo. Minhas criações, por exemplo, trazem informações menos complexas. Eu diria que infinitamente menos complexas do que uma seqüência de DNA; no entanto, são também impossíveis de serem replicadas pela aleatoriedade, simplesmente porque elas são criadas com desígnio e intencionalidade, o mesmo gênero de informação e complexidade que encontramos abundantemente no ser humano e na natureza.
"O mundo da natureza, o mundo do homem e o mundo de Deus: Todos eles se encaixam." Johannes Kepler astrofísico alemão (1571-1630)